Allan Weslei

Alguém que pensa, logo existe!

Jogadores de futebol “bacanas”, “malas” e “malas que acham ser legais”

O assunto é polêmico, causará controvérsias mas faz muito tempo que desejo escrever sobre os diversos “tipos” de jogadores de futebol.

Na condição de são-paulino fanático, falar sobre o meu maior ídolo no futebol também não será tão simples e tentarei ser o menos parcial possível.

Eu diria que existem os jogadores “bacanas”, os “malas” e os “malas que acham ser legais”.

Durante esta análise, eu tentarei usar exemplos de jogadores de renome e que tenham minimamente uma carreira de sucesso.

Os jogadores “bacanas” são aqueles que têm em sua passagem no futebol a admiração até de torcedores adversários. Mais do que isso, a admiração e o respeito.

Qualquer torcedor de futebol admira um excelente jogador mas são poucos que conseguem o respeito de todas as torcidas.

Eu encabeçaria dos jogadores atuais o goleiro Marcos, do Palmeiras, como o representante dos jogadores “bacanas”.

Jogadores como estes têm sua conduta profissional baseada na humildade, repeito, coragem e a verdade acima de tudo.

Está mais do que evidente nas mídias recentes, a comoção dos brasileiros com a aposentadoria do referido jogador.

Em uma jogada de elegância e bastante gentileza (leia nas entrelinhas o fortalecimento da aliança contra o São Paulo F.C.), a diretoria corintiana até publicou nota em seu site congratulando a carreira do ex-arqueiro alvi-verde.

Marcos foi um jogador perfeito? Longe disso! Foi um ótimo jogador? Sim, com certeza!

Mas o legado que ele deixa é que podemos ser leais, de bom caráter – em um mundo podre como o do futebol – e assumir nossos erros e fraquezas (até com bastante franqueza).

Por diversas vezes, a postura de Marcos em um anseio descomunal de vencer colocava em xeque a capacidade de seus companheiros de time e profissão.

Marcos às vezes não se dava conta que os outros jogadores não estavam à sua altura – tecnicamente e na vontade – e com isso os expunha diante da imprensa.

Em um grupo de jogadores com vergonha na cara, a outra partida deveria ser encarada como uma decisão. A derrota até poderia ocorrer mas com o sangue e suor dos outros jogadores.

E isso não ocorria, causando mal estar entre jogadores, diretoria e torcida. Era então o estopim de uma nova crise no Palmeiras.

Marcos fez partidas memoráveis, defesas espetaculares e alguns erros bizonhos.

Em boa parte das que venceu, creditou ao grupo e a Deus. As que perdeu, quando necessário e com o devido erro, assumia diante de todos, mostrando fragilidade.

Marcos ajudou o Palmeiras a eliminar seu maior arqui-rival em duas decisões consecutivas, sendo uma defendendo pênalti de Marcelinho Carioca, jogador este que será lembrado logo mais.

Em uma destas edições, Marcos sagrou-se campeão da Taça Libertadores da América com atuação destacadíssima durante todo o campeonato.

Marcos falhou grotescamente na final do Mundial Interclubes de 1999, sonho de todos os palmeirenses. Assumiu o erro ao término da partida e chamou a culpa para si, mesmo em um jogo onde o ataque palmeirense errou chances claras de gol.

Mas vida de goleiro é assim. Precisa defender tudo! O atacante nunca é lembrado pelo gol perdido. 

Marcos deu a volta por cima e como titular da Seleção Brasileira de 2002, venceu a Copa do Mundo e convenceu com boa atuação.

Enfim, são só exemplos da carreira de um jogador “bacana” e que não consegue causar ódio, ira e desprezo dos outros torcedores.

Outro jogador que poderia ser encaixado neste perfil é o Ronaldo “Fenômeno”.

Seria bobagem eu querer falar da carreira de um dos melhores jogadores que o mundo viu dentro de campo.

Vitorioso em todos os sentidos e campeonatos, Ronaldo é exemplo de persistência e superação.

Apesar de ter jogado pouco no Brasil – começo da carreira no Cruzeiro e aposentadoria no Corinthians – fez estrago enquanto tinha condições físicas.

Na mocidade, encantou o Brasil com seus muitos gols, o que lhe rendeu uma convocação para a Seleção Brasileira de 1994 (Tetra) com apenas 17 anos.

Já no término da carreira, com estado físico muito debilitado, ainda assim por um ou dois semestres fez jogadas/jogos brilhantes com a camisa alvi-negra,calando a boca de muitos.

Futebol ele sempre teve, estava muitos anos à frente de qualquer outro jogador brasileiro, mas seu corpo não aguentava mais o ritmo do futebol contemporâneo.

Atleta acostumado com as grandes badalações que lhe foram concedidas, nunca escondeu que aproveitou a vida e desfrutou de prazeres (e vícios) como comida, bebida, mulheres e cigarro.

Mas o mais interessante disso tudo é que Ronaldo nunca fingiu ser “santo”, “boa gente”, “puro”. Ronaldo era ele mesmo.

Ronaldo era o cara que assumia responsabilidades diante de fracassos (Seleção – 1998) e mais recentemente no Corinthians pelas eliminações precoces em edições de Libertadores da América.

De modo igual, assumiu ter passado uma noite em motel com travestis em sua companhia.

Com certeza algo que poderia causar estrago em sua carreira. Mas não causou totalmente.

Porque Ronaldo simplesmente não titubeou diante de todos, querendo bancar uma de “bacana” e “puritano”, o que seria uma saída em situação tão estranha como esta.

Não sou eu quem irá avaliar a opção sexual de Ronaldo. Na condição de pai, parece-me ser uma pessoa que faz o possível e impossível por suas crianças, independente da mãe.

É um cara que o Brasil não consegue ter raiva. Deu-nos uma Copa do Mundo (com grande contribuição de Rivaldo), infernizou os times paulistas por algumas temporadas, mas ainda assim os torcedores que não o viram jogar com a camisa de seu clube de coração, não conseguem sentir ódio.

Parece ser um sujeito verdadeiro, que fala o que pensa, até muitas vezes beirando o escrachado.

Por outro lado, do ponto de vista dos negócios, entendo que ele esteja começando a “perder a linha”. Neste caso em específico, eu me refiro à coerção imposta à Rede Bandeirantes (publicidade) por se sentir também ofendido com uma piada (de mau gosto, mas uma piada) contra a esposa de seu sócio.

Mas deixemos de lado este aspecto e voltarei a me ater aos “jogadores de futebol” em si.

Já no que tange aos jogadores “mala”, eu citaria um exemplo típico: Rogério Ceni, meu grande ídolo.

O goleiro tricolor é o jogador “mala” nato.

Antes de entrar nas características de um mala, devemos citar que a carreira de Rogério Ceni é pautada nas seguintes palavras: determinação, vitória,  obstinação, técnica, perfeccionismo e ganância por títulos e conquistas.

Vendo tudo isso de fora e tendo sua carreira consolidada, é muito fácil dizer que ele é mala e ponto.

Sim, ele é mala, odiado por todos os outros clubes, mas, AMADO por qualquer são-paulino no mundo. E por quê?

Porque como poucos, defendeu as cores do São Paulo F.C. com muita raça, vontade, determinação e trouxe os títulos que hoje são de orgulho do torcedor tricolor (entre outros, Paulistas, Brasileiros, Libertadores e Mundial).

Ter assumido a posição de Zetti, ídolo monstruoso da torcida são-paulina, goleiro com currículo de botar medo em qualquer jogador profissional, Rogério Ceni foi buscando seu espaço e hoje é o que é, graças ao seu trabalho árduo.

 Enquanto qualquer jogador no mundo estava descansando, Rogério Ceni estava treinando e treinando.

E os seus treinos eram de fundamento, um aspecto que qualquer jogador profissional tem pavor de fazer.

É um goleiro extremamente plástico, técnico, o MELHOR do MUNDO na reposição com os pés, cobranças de faltas e pênaltis, sendo o maior artilheiro da história.

Mas não posso negar, é turrão, ranzinza, ácido, chato e dentre todas as características negativas: dificilmente assume erros.

Na cabeça de Rogério Ceni, ele sabe que errou.

Muitas vezes, ele fica puto pois o comentarista que apresenta sua falha nunca esteve debaixo das traves e não sabe os elementos que tornam aquela jogada defensável ou não.

Rogério Ceni não tem paciência com perguntas cretinas e seu perfeccionismo é dilacerador.

Quando questionado sobre um rival com educação, responde à altura. Quando é insultado ou recebe um comentário de provocação de um rival, rebate, com categoria, acidez e mala que lhe são peculiares. E estas respostas visam sempre desestruturar de uma vez por todas seu oponente.

Eu concordo que os torcedores rivais devem sentir ódio de Rogério Ceni. Ele é alguém que causa isso naturalmente.

Detentor de tantos títulos, em diversas situações pensa estar acima do Bem e do Mal, e costuma ser este o momento que comete falhas.

Rogério Ceni foi o melhor jogador da Libertadores da América de 2005 (e artilheiro com 5 gols) e também o melhor em campo na final do Mundial Interclubes (2005), com atuação simplesmente maravilhosa “debaixo das traves”.

 O goleiro que era criticado por todas as outras torcidas como apenas “fazedor de gols e bom com os pés” mostrou ao mundo que tinha bagagem técnica e excepcional para trazer o Mundial para terras brasileiras.

Porém, é um líder nato. Há quem diga que sua liderança atrapalha novas conquistas do São Paulo F.C.

Eu discordo. Rogério Ceni evita que brigas internas e erros individuais venham a prejudicar o grupo. Tenta blindá-las usando todo o seu respaldo diante da imprensa, o que ocasiona ódio de todos por saberem que seus dizeres são mentirosos.

Rogério Ceni é mala, faz por merecer esse título e não se importa com isso. Para ele, não importa o que pensam os outros torcedores. O importante é a opinião da torcida são-paulina e isso ele terá eternamente.

Marcelinho Carioca é, sem dúvidas, um outro jogador que se encaixa nesta definição de “mala”.

A diferença é que uma parcela da própria torcida corintiana mostra raiva desse ex-jogador. Vale dizer que este é o maior detentor de títulos com a camisa alvi-negra.

Seu passado de mau-caratismo diante do grupo de jogadores que pertencia é bastante latente.

Mas não tenho mais fundamento para falar sobre este jogador.

Era um jogador excelente, muito habilidoso, perigoso ao extremo, cativante com sua torcida (dentro de campo) e letal em cobranças de falta.

Assim como Rogério Ceni, seu aspecto “mala” o prejudicou em convocações recorrentes para a Seleção Brasileira de Futebol. Ambos foram convocados por diversas vezes.

Rogério Ceni foi campeão da Copa do Mundo em 2002 (banco de reservas).

Acredito que nunca mais teremos um trio de goleiros tão bom e no auge como nesta Copa (Rogério Ceni, Marcos e Dida).

Além disso, Ceni teve uma grande sequência como titular enquanto Emerson Leão foi o técnico do escrete brasileiro. Já Marcelinho Carioca nunca conseguiu se firmar e sempre encontrou muita rejeição por parte de outras torcidas.

Ah, um outro exemplo: o “Baixinho” Romário. Um “mala” convicto e vencedor!

Agora vamos ao último tipo de jogador que defino: o “mala que acha ser legal”.

Nesta categoria existem inúmeros jogadores mas irei direto ao ponto no exemplo: Neymar.

O fantástico e surpreendente jogador santista tem futebol para ser com certeza o mulher do mundo.

Em um espaço curto na carreira de jogador de futebol, já venceu inúmeros títulos, sendo um de muita expressão: a Taça Libertadores da América.

Na última eleição da FIFA, tendo sua premiação ontem, ficou em décimo lugar (mesmo não jogando na Europa).

Acredito que essa colocação poderia ser bem melhor caso o astro do alvi-negro praiano tivesse feito uma boa final no Mundial Interclubes de 2011 ante à equipe catalã do Barcelona.

Neymar foi apático, irreconhecível, sem magia própria e não mostrou ao mundo o porquê de estar entre os melhores.

Independente desta partida, acredito que ele esteja entre pelo menos os 5 (cinco) melhores.

Porém, Neymar é novo e com certeza um dia estará lá. Futebol para isso ele tem de sobra, assim como sua soberba.

Neymar sabe que é fora de série, sensacional e por este motivo, sua estrela subiu rápida demais.

Foi e é mal assessorado, por seu pai e pelos diretores santistas.

Sou de maneira veemente contra pais que se tornam empresários e managers de filhos.

Pai é pai. Pai é passional. E pai age com o coração quando tem que agir com a razão e vice-versa.

Neymar aprendeu de criança ser o “melhor” e de uns tempos para cá, está sendo instruído a ser “bonzinho”, em uma tentativa infame e ridícula de ser colocado a um novo patamar, o de ídolo nacional.

Na carência que temos de uma aposentadoria de Ronaldo e por termos perdido precocemente Ayrton Senna, os diretores santistas vislumbraram a possibilidade de Neymar estar neste lugarzinho.

Pelo amor de Deus, o status de ídolo não é construído com planejamento e ações de marketing.

O ídolo consegue a veneração de seus fãs naturalmente e por méritos próprios. Não se projeta um ídolo, ele nasce e vai se moldando por si só, até conquistar um povo e uma nação.

Neymar, nesta tentativa inefável de ser bom moço, beira o ridículo. Ele não deve satisfação a pessoa alguma.

Se ele recebe milhões por mês, é porque tem futebol para isso e quem o pague. E tem todo o direito do mundo de usufruir desse dinheiro recebido com seu suor, jogadas, dribles, gols e até mesmo através de grandes propagandas publicitárias (para mim, excessivas).

Agora vir à imprensa e posar de moço respeitador, tranquilinho, centrado na carreira e que recebe mesadinha de R$ 10.000,00 do pai, isto é demais para minha humilde inteligência.

Neymar comprou esta idéia. Ele acredita piamente que não só será o melhor do mundo no futebol (que é onde eu acredito que seus esforços deveriam estar focados), mas de que será um ídolo nacional e até internacional.

Messi, argentino, o faz com extrema maestria. Ídolo, monstro, fantástico e vive sua vida sem projetar saltos através de recursos midiáticos.

E vejam onde ele está hoje: soberano como melhor jogador do mundo, obtendo inclusive o respeito e admiração de torcedores brasileiros.

Pensando novamente na postura imposta e aceita por Neymar, eu prefiro o jogador “mala” propriamente dito, pois ele sabe o que é e não posa diante de todos.

Uma hora a máscara cai e o julgamento caberá ao povo.

Há duas escolhas: a do “Mala” ou a do “Bacana”. Ambas têm suas dificuldades e compensações.

Mas definitivamente, o meio termo me enoja.

Um grande abraço a todos,

Allan Weslei Pereira

10/01/2012 Publicado por | Esportes, Futebol, Sociedade | , , , , , , , , , , , , , | 2 Comentários

   

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